por Milena Pires para a revista Ainda // produto resultado da série Visão de Rua, Globo, Canal Off.
Abram caminhos para reverenciar a nova ocupação no centro histórico do Rio de Janeiro: Iboru.
Sob a gestão dos mestres Marcelo D2 e Luiza Machado, o local convida todos a entrarem de peito e mente abertos. A única regra? Fazer conexões. Trocar ideias, experiências e histórias é o que move o espaço, fazendo dele um ponto de encontro para quem busca novas perspectivas.
É na Rua Sete de Setembro que a mágica acontece.
Quando perguntamos a Marcelo o porquê da existência do espaço e o que representa na prática, ele nos responde que sente dificuldade em guardar o Iboru em apenas uma caixinha, isso porque lá é um lugar de dar vez para quem nunca teve, de festa e de encontro com a arte.
Ao pisarmos no antigo galpão revitalizado, somos tomados por uma sensação de grandiosidade e potência. Do alto do segundo andar, um quadro de Dona Ivone Lara, eternizada como a rainha que é, parece nos abençoar e cantar baixinho no pé do ouvido de cada um “ó, padrinho, não se zangue, que eu nasci no samba, não posso parar (…) foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há?”.
Assim como Ivone, parece que também chamaram Marcelo e ele atendeu. Nascido e criado em um ambiente muito musical do Rio de Janeiro, Andaraí, D2 nega qualquer rótulo e traz sua rebeldia de berço do rap e a essência contracultural do skate para dizer “aqui não” – as predefinições nos limitam e ele é um artista essencialmente plural. Tanto no Iboru quanto na vida, as palavras de ordem são muitas: música, política, afeto, e o que mais sua criatividade permitir.
Nas paredes a frase “o que não se registra, o tempo leva” salta aos olhos e escancara o propósito para quem ainda não tinha entendido. O aviso não é apenas uma frase de efeito, mas uma missão levada a sério, o galpão é um novo capítulo na história de uma cidade que nem sempre faz jus ao título de “maravilhosa”, principalmente para os que vivem à margem.
Com olhos e ouvidos sempre atentos, Marcelo nos conta que lá ele vive a metáfora da flecha: quanto mais puxa para trás, mais potência e força temos para avançar, “é com os pés no passado que a gente constrói o futuro”. Assim tocam os tambores do Iboru, permeados pela ideia de que a arte tem o poder de romper fronteiras e reescrever a história que vem sendo historicamente apagada.
Cada canto do Iboru ecoa um chamado para que nós também sejamos flechas.
Em um dos episódios da série televisiva, que culminou na revista, tivemos a oportunidade de conhecer exposição “Vogue”, do artista Elian Almeida, que mergulha no apagamento e no protagonismo da mulher negra, reinterpretando capas da Vogue a partir da história do feminismo negro brasileiro. Estar cercada de arte e de pessoas que inspiram é sempre um lembrete de que criar é também resistir, recontar e devolver o olhar.
Matéria escrita para a revista Ainda. Produto resultado da série Visão de Rua, Globo, Canal Off.
Série: Visão de Rua, Globo, Canal Off
Direção: Ronaldo Land
Ass. de Direção: Shimene Lima Rabelo
Direção de Fotografia: Lucas Magalhães
Ass. de Câmera: Malu Morgado, Maria Clara Maiorano, Thiago Pozes
Gaffer: Jon Tomaz
Produção Executiva: Ronaldo Land, Eduardo Rezende
Direção de Produção: Bruno Soares
Ass. de Produção: Georgia Curty
Motion: Bruno Yoguy, Maicon Brazil
Edição: Shimerne Lima, Thaissa Bichucher, Thiago Pozes
Finalização: Shimerne Lima Rabelo
Elenco: Milena Pires, Júlio Tio Verde, Salen Fotogracria, Wolmin, Ga Kunst
Motoristas: Galante e Oziel